Por Ludmila Vilar* Seis filmes e séries sobre governança e disponíveis no streaming, podem ensinar muito sobre as brechas que permitem fraudes como a do Banco Master . Eis que três anos após o escândalo contábil da Americanas , o Brasil volta a discutir governança corporativa diante das revelações envolvendo, provavelmente, o maior golpe recebido pelo sistema bancário do país. Casos assim costumam surgir como surpresas para a sociedade no geral, mas quase sempre são precedidos por sinais ignorados: controles frágeis, conflitos de interesse e supervisão insuficiente. Ou seja, um contexto que praticamente permite - se não incentiva - a desgovernança corporativa. A história não é nova e já foi retratada em várias séries e filmes disponíveis no streaming . Produções como The Big Short ( A Grande Aposta ), The Laundromat ( A Lavanderia ), Madoff: The Monster of Wall Street ( Bernie Madoff – O Golpista do Século ), Children of Lead ( Filhos de Chumbo ) e Dark Waters ( Águas Escuras ) e até a série Succession, sucesso estrondoso da HBO, ajudam a entender como falhas de governança podem evoluir até se transformar em crises. Quando isso acontece, o impacto não fica restrito às empresas. Investidores, trabalhadores, comunidades e até a estabilidade do sistema financeiro acabam pagando a conta. * Jornalista especializada em ESG, editora da newsletter do IBESG e fundadora da BANCA Comunicação e Impacto The Big Short — A Grande Aposta O filme acompanha investidores que perceberam antes do mercado que o sistema financeiro dos Estados Unidos estava sustentado por ativos imobiliários de alto risco. Esses ativos — os subprime mortgage-backed securities — eram vendidos como produtos seguros por bancos e instituições financeiras. Quando a bolha imobiliária estoura, em 2008, fica claro que grande parte do sistema financeiro estava exposta a riscos que haviam sido ignorados ou deliberadamente ocultados. Em síntese, a crise retratada no filme revela um sistema em que incentivos financeiros, falta de supervisão e opacidade informacional enfraqueceram os mecanismos de governança. Em cartaz na Netflix (sai do catálogo dia 17 de março) ou para alugar na HBO) Onde a governança corporativa falhou Gestão de risco inadequada Bancos e instituições financeiras mantinham produtos extremamente arriscados em suas carteiras sem avaliação adequada do risco real. Conflito de interesses nas agências de rating Empresas como Moody’s e Standard & Poor’s davam notas altas a produtos financeiros estruturados, embora fossem pagas pelas próprias instituições que os emitiram. Falta de transparência Os produtos financeiros eram complexos e pouco compreendidos até mesmo dentro das instituições que os vendiam. Incentivos distorcidos Executivos e traders eram remunerados por volume de vendas e lucro de curto prazo, não pela sustentabilidade das operações. The Laundromat — A Lavanderia Inspirado no escândalo dos Panama Papers , o filme mostra como redes internacionais de empresas offshore eram usadas para esconder patrimônio, lavar dinheiro e evitar impostos. A história acompanha casos fictícios baseados em situações reais, revelando como estruturas jurídicas aparentemente legítimas permitiam ocultar a identidade de beneficiários finais. Em cartaz na Netflix. Onde a governança corporativa falhou Opacidade societária Empresas offshore eram estruturadas para ocultar os verdadeiros proprietários, dificultando qualquer mecanismo de accountability. Falhas em compliance e due diligence Intermediários financeiros, escritórios de advocacia e bancos frequentemente ignoravam sinais de irregularidade. Arbitragem regulatória Jurisdições com baixa transparência foram usadas para contornar regras fiscais e regulatórias. Governança global fragmentada A ausência de coordenação internacional permitiu que fluxos financeiros ilícitos circulassem entre diferentes países. Madoff: The Monster of Wall Street — Bernie Madoff: O Golpista do Século A produção reconstrói o maior esquema de pirâmide financeira (Ponzi scheme) da história moderna. Bernie Madoff prometia retornos consistentes a investidores institucionais, fundos e indivíduos de alto patrimônio. Na realidade, os pagamentos feitos aos investidores antigos vinham do dinheiro de novos investidores. O esquema operou por décadas e colapsou em 2008. A produção reconstrói o maior esquema de pirâmide financeira (Ponzi scheme) da história moderna. Em cartaz na Netflix Onde a governança corporativa falhou Ausência de segregação de funções Madoff controlava simultaneamente gestão, custódia e auditoria das operações, eliminando controles independentes. Auditoria inadequada A empresa era auditada por um pequeno escritório sem capacidade técnica para verificar operações de grande escala. Falhas regulatórias A SEC (Securities and Exchange Commission) recebeu denúncias formais anos antes do colapso e não investigou adequadamente. Confiança excessiva baseada em reputação A imagem de Madoff como figura respeitada em Wall Street reduz