Por Ludmila Vilar Saúde mental é um problema inicialmente invisível nas empresas - e, por isso, difícil de detectar antes do afastamento do funcionário. Torna-se, no entanto, assustadoramente palpável quando vamos aos números: em 2024 mostram que o país registrou mais de 470 mil afastamentos por transtornos mentais , um aumento de 68% em relação ao ano anterior. Os dados alarmantes e a pressão da sociedade levaram o Ministério do Trabalho (MIT) a, finalmente, atualizar Norma Regulamentadora nº 1 (NR1), incluindo o sofrimento psíquico como um problema de saúde e segurança do trabalho. A partir de 26 de maio deste ano, doenças como depressão , ansiedade e reações ao estresse no contexto profissional passam a fazer parte da NR 1, que estabelece as diretrizes de Segurança e Saúde no Trabalho (SST) no Brasil. Ou seja, as empresas agora serão obrigadas a incorporar a gestão de riscos psicossociais relacionados ao trabalho em seu Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Como gerir riscos psicossociais Na prática, isso significa que doenças mentais deverão constar no inventário de riscos ocupacionais, ao lado dos já reconhecidos riscos físicos, químicos, biológicos, de acidentes e ergonômicos. Com a atualização, o GRO deve mostrar, de forma estruturada, a identificação, avaliação e controle de riscos psicossociais. E que riscos são esses? Fatores comuns ao dia a dia do trabalhador como sobrecarga , jornadas extensas , metas desproporcionais , assédio moral e conflitos organizacionais. O Ministério do Trabalho disponibilizou em seu site um guia sobre o assunto. Para acessá-lo, clique aqui Cenário da crise mental no trabalho Em 2022, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Organização Mundial de Saúde (OMS) publicaram o estudo Mental health at work: Policy brief onde mostra que 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos anualmente devido à depressão e à ansiedade. Em termos financeiros, isso representa um custo de quase um trilhão de dólares à economia global. No Brasil, os Transtornos de Ansiedade [Classificação Internacional de Doenças (CID) F41] representaram 3,78% do total de adoecimentos - 3º lugar entre os problemas que mais afastam trabalhadores. Perde somente para Dorsalgia (CID M54) e Lesões do ombro (CID M75). Já a Depressão (CID F32) e as Reações ao Estresse Grave e Transtornos de Adaptação (CID F43), representaram 2,32% e 2,25% respectivamente. Se somadas, doenças mentais estariam em 2º lugar nessa lista, representando 8,35% dos adoecimentos ocupacionais . Impacto positivo do cuidado com a saúde mental Os dados oficiais ajudam a dimensionar o cenário. Ao tornar a saúde mental um componente explícito da gestão obrigatória de riscos, a NR 1 desloca o tema do campo reputacional para o campo regulatório . Não se trata apenas de oferecer apoio psicológico eventual, mas de estruturar políticas preventivas e monitoramento contínuo. Para o mercado, isso significa maior exigência de governança e transparência. Para os trabalhadores, representa o reconhecimento de que condições organizacionais são determinantes para o equilíbrio não só físico. Para o sistema público, a tendência é de redução de custos associados a afastamentos e judicialização, caso as medidas sejam efetivamente implementadas. E para o ESG é uma oportunidade de fortalecer o pilar Social. Ludmila Vilar é jornalista e fundadora da Banca Comunicação