No Cerrado, uma nova lógica econômica está sendo criada para beneficiar quem conserva - e os números a seguir mostram porque essa é uma iniciativa fundamental. Essa que é a Savana mais biodiversa do mundo, e concentra 5% de toda a biodiversidade mundial, está inteiramente no Brasil. Trata-se do segundo maior bioma da América do Sul, com cerca de 204 milhões de hectares, ou 24% do território brasileiro. É também vital para o equilíbrio ambiental e econômico do País. Conhecido como o "berço das águas", o Cerrado abriga as nascentes das principais bacias hidrográficas sul-americanas, o que faz dele um vetor de segurança hídrica para o Brasil. Ali, concentram-se também 60% da produção agrícola nacional. Apesar disso, a região segue desprotegida e pouco atendida pelo poder público. De acordo com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia ( IPAM ), atualmente dos mais de 30 mil Projetos de Lei, Emendas Constitucionais e Medidas Provisórias em tramitação na Câmara dos Deputados, apenas oito tratam da proteção ou da criação de áreas de conservação específicas para o bioma. O resultado desse abandono é severo. Hoje, o Cerrado é o bioma brasileiro que mais sofre desmatamento - de toda vegetação destruída em 2025 no País, 55% foi na região. Ainda que tenha havido uma diminuição de 17% em relação a 2024, a área devastada é assombrosa: foram 540 mil hectares de vegetação nativa, o equivalente ao tamanho do Distrito Federal ou aproximadamente 760 mil campos de futebol. Essa combinação ajuda a explicar o lugar estratégico do Cerrado no debate ambiental. Ele é, ao mesmo tempo, reservatório de biodiversidade - reúne milhares de espécies de plantas nativas, além de fauna diversa e alto grau de endemismo -, base hídrica de grandes regiões brasileiras e fronteira de expansão econômica. A conservação ambiental precisa ser recompensada “Conservar não pode ser uma conta paga apenas por quem mantém a vegetação nativa em pé”. Essa é a tese que orienta o trabalho de Pablo Rezende, fundador do Instituto Veadeiros e da BASAC — Brasil Amado Soluções Ambientais e Climáticas. A ideia parte de uma contradição conhecida por quem vive em áreas de alta relevância ambiental. Proprietários, comunidades e organizações que protegem nascentes, solos, biodiversidade e paisagens prestam serviços que beneficiam a sociedade. Mas, muitas vezes, arcam sozinhos com os custos dessa escolha. Na prática, isso cria um desequilíbrio. Por outro lado, as atividades que pressionam o território costumam ter mais acesso à capital , infraestrutura e mercado. Já a conservação, embora gere benefícios coletivos, ainda encontra dificuldades para se financiar. “A conservação precisa deixar de ser vista como sacrifício individual e passar a ser reconhecida como serviço estratégico para o país”, afirma Rezende. É dessa leitura que nasce a defesa de uma nova economia da conservação. Não se trata apenas de compensar impactos ambientais. A proposta é criar mecanismos capazes de reconhecer, medir e remunerar quem conserva territórios essenciais para a segurança hídrica, a estabilidade climática e a biodiversidade. No cerrado, uma rede para proteger e regenerar A experiência de Rezende nasce na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, uma das áreas mais conhecidas do Cerrado brasileiro, porém não a mais ameaçada. Esse peso recai sobre a chamada região de Matopiba - formada pelas sílabas dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, onde concentram-se os índices mais críticos. No palco do Water Regen Summit , evento que aconteceu no mês de junho em São Paulo, Rezende contou como entendeu na prática a pressão sobre quem conserva. Ele já havia comprado uma área na Chapada dos Veadeiros quando ouviu de um vizinho que talvez fosse obrigado a abrir sua fazenda para a soja, por pura falta de viabilidade econômica. “Embora não quisesse converter a área preservada, ele não conseguia mais sustentar sozinho os custos da conservação”, diz. O problema expôs o paradoxo que se repetia no território: preservar tinha valor ambiental, mas não gerava renda. O Instituto Veadeiros nasceu dessa vivência direta com a Chapada e da percepção de que conservar o Cerrado não poderia significar apenas resistir: era preciso construir uma nova economia capaz de reconhecer, financiar e dar escala à conservação. Hoje um dos principais projetos do Instituto é o Santuário Brasil Amado, iniciativa que mobilizou vizinhos e outros proprietários em torno de uma estratégia comum de conservação. Segundo Rezende, hoje a rede reúne áreas que somam mais de 20 mil hectares de Cerrado preservados. Juntas essas propriedades formam um mosaico de paisagens comprometido com a proteção da biodiversidade, da água e dos serviços ecossistêmicos da região. A rede também fortaleceu a proteção de áreas contínuas, evitando que propriedades conservadas fiquem isoladas como pequenas ilhas cercadas por degradação. “Conservação em escala depende de conectividade, diálogo e visão de lo