Claudio Andrade* Para reportar a Dupla Materialidade é preciso combinar duas lentes complementares. A materialidade de impacto identifica como as atividades de uma empresa afetam pessoas, meio ambiente e sociedade. A materialidade financeira , por sua vez, avalia como fatores ambientais, sociais e de governança influenciam o desempenho econômico, a posição financeira, os fluxos de caixa e o custo de capital. Embora seja comum imaginar que a Dupla Materialidade se restrinja aos temas que aparecem simultaneamente nas duas dimensões, esse não é o entendimento técnico adotado pelas principais normas internacionais. ESRS, GRI e CBPS são claros: um tema é material se for relevante pelo impacto, pelo financeiro ou por ambos . Essa lógica evita um erro recorrente no mercado: reduzir a análise apenas ao que está na interseção. Se fizéssemos isso, excluiríamos temas com enorme relevância socioambiental, mas sem efeito financeiro imediato, como biodiversidade em determinados setores e também temas com risco financeiro significativo, mas sem impacto social direto, como volatilidade cambial ou dependência de fornecedores críticos. A função da Dupla Materialidade O objetivo dessa forma de reportar é justamente capturar tudo o que importa para o mundo e tudo o que importa para o negócio , mesmo quando essas duas esferas não se sobrepõem. É verdade que um tema de impacto pode se tornar financeiro, como ocorre quando danos ambientais geram multas, paralisações, perda de licença ou aumento de custos. Não significa, no entanto, que todo impacto se converta em risco financeiro, nem que todo risco financeiro tenha origem em impactos socioambientais. Por isso, as duas análises são conduzidas separadamente e depois combinadas, não para encontrar o “meio-termo”, mas para formar um quadro completo de relevância. O que isso muda para as empresas A adoção da Dupla Materialidade não é apenas um requisito de reporte; ela altera a forma como as empresas entendem risco, valor e estratégia. Entre os efeitos mais relevantes: Ampliação do radar de riscos e oportunidades: temas antes considerados “não financeiros” passam a influenciar decisões estratégicas, investimentos e inovação. Fortalecimento da governança: exige processos formais, rastreáveis e auditáveis para identificar, priorizar e justificar temas materiais. Melhor qualidade de informação para investidores: ao separar impacto e finanças, a empresa mostra maturidade analítica e reduz assimetria informacional. Integração com estratégia e modelo de negócios: no Relato Integrado, a distinção entre impacto e financeiro se conecta diretamente aos capitais afetados, ao modelo de criação de valor e à gestão de riscos. Reputação e legitimidade: temas materiais pelo impacto reforçam a licença social para operar, mesmo quando não afetam imediatamente o caixa. A Dupla Materialidade, portanto, não é apenas uma mudança metodológica; é uma mudança de mentalidade. Como os temas materiais aparecem nos relatórios de gestão Nos relatórios de sustentabilidade que aplicam a Dupla Materialidade, todos os temas materiais identificados devem ser apresentados , independentemente da perspectiva pela qual foram considerados materiais. É obrigatório indicar se cada tema é material pelo impacto, pelo financeiro ou pelos dois, normalmente por meio de uma tabela ou matriz. Quando um tema é duplamente material, o relatório deve explicar como ele se manifesta em cada dimensão. Por exemplo: Segurança do trabalho é material pelo impacto porque afeta diretamente a integridade dos trabalhadores. É material financeiramente porque acidentes geram paralisações, multas, aumento de custos e perda de produtividade. Essa clareza permite que leitores — de investidores a reguladores, de comunidades a colaboradores — entendam por que cada tema importa e como ele se conecta à estratégia empresarial. Conclusão Reportar a Dupla Materialidade significa apresentar todos os temas relevantes , deixando claro se cada um é material pelo impacto, pelo financeiro ou por ambos. A lógica não é a interseção, mas a união das duas perspectivas , garantindo que o relatório capture tudo o que importa para a sociedade e tudo o que importa para o negócio. Ao fazer isso, a empresa fortalece sua transparência, sua governança e sua capacidade de tomar decisões estratégicas com visão de longo prazo. * Mestre em Comunicação Social pela USP, especialista em sustentabilidade empresarial e relatórios ESG. CEO da Ratio Sustentabilidade, professor na USP/ESALQ e Advisor ESG no setor da Construção. Membro Fellow do IBESG .