O consumo sustentável no Brasil vive entre a intenção e o abismo. Existe um dado que escancara a dicotomia dos brasileiros em relação à sustentabilidade : 87% afirmam querer fazer escolhas mais sustentáveis, mas apenas 35% efetivamente mudam seus comportamentos , segundo pesquisa da Kantar publicada em 2025. À primeira vista, parece um problema de força de vontade. Não é. A tese deste texto é simples: o abismo de 52 pontos entre o que queremos e o que fazemos não nasce da falta de boa vontade do consumidor, mas da ausência de infraestrutura pública, de regulação e de fiscalização que tornem a escolha sustentável de fato possível. Para demonstrá-la, percorremos quatro frentes — o lixo que produzimos, a coleta seletiva que mal existe, a moda que ninguém fiscaliza e a energia que o Brasil acerta — antes de apontar o que precisaria mudar. Gráfico 1 - Paradoxo da sustentabilidade: intenção vs. ação efetiva (Kantar, 2025) O país que produz lixo em escala industrial O Brasil gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2024 - uma alta de 0,75% em relação ao ano anterior, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos da ABREMA. Isso equivale a 384 kg por habitante ao ano , ou pouco mais de 1 kg de lixo por pessoa por dia. O dado impressiona mais quando cruzado com o destino desse lixo: dos 81,6 milhões de toneladas, apenas 59,7% recebeu destinação ambientalmente adequada em aterros sanitários. Os outros 40,3% seguiram para lixões ou locais inadequados , contaminando solo, lençóis freáticos e o ar em centenas de municípios. É preciso ser direto: manter lixão é ilícito; o prazo de encerramento, inicialmente em 2014, e reescalonado pela Lei 14.026/2020, se esgotou para todos os municípios. Quem o faz comete infração administrativa passível de multa e, dependendo das circunstâncias, infrações previstas na Lei 9.605/1998 (Lei de Crimes Ambientais). Gráfico 2 - Destino dos 81,6 milhões de toneladas de RSU, Brasil 2024 (ABREMA) E a reciclagem? O Brasil recicla menos de 2% do lixo que coleta. As estimativas variam conforme o método de cálculo — algumas chegam a 4% ou 8,7% —, mas o índice oficial do Ministério do Meio Ambiente, que mede a recuperação de recicláveis sobre o total de resíduos urbanos, é de apenas 1,82%. É essa a base usada nas metas do governo (ver Gráfico 6). Em qualquer leitura, reciclamos uma fração mínima do que deveríamos, muito abaixo dos cerca de 16% típicos de países de renda semelhante. E isso não é fracasso do cidadão: é fracasso de gestão pública e de modelo econômico. A mentira da coleta seletiva Quando o assunto é reciclagem, o discurso dominante responsabiliza o consumidor: "separe o lixo", "descarte corretamente", "seja consciente". É um argumento cômodo e profundamente desonesto. A coleta seletiva existe em 60,5% dos municípios brasileiros , segundo o IBGE (Munic 2023). Mas ter algum programa não garante cobertura efetiva: em boa parte deles o serviço é parcial. Na prática, apenas 36% da população brasileira é de fato atendida pela coleta seletiva (Sinisa, ano-base 2023) . Gráfico 3 - Cobertura de coleta seletiva por municípios e população, Brasil 2023 Enquanto o debate fica preso na dicotomia "consumidor consciente vs. irresponsável", mais de 800 mil catadores de materiais recicláveis sustentam com trabalho precarizado o único sistema de reciclagem que de fato funciona no Brasil. A PNRS não apenas "previa" sua inclusão: os arts. 18, § 1, e 19 exigem que os planos municipais de resíduos contemplem os catadores, e o art. 36, § 1, determina que o titular do serviço priorize a contratação de suas cooperativas (dispensável a licitação, art. 36, § 2). O que houve não foi só "adiamento de metas". Foi descumprimento sistemático de obrigação legal. O Fast Fashion e os 4 milhões de toneladas que ninguém quer ver Se os resíduos sólidos urbanos já são um desastre anunciado, a indústria têxtil adiciona uma camada que o debate brasileiro teima em ignorar. Mais de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis são descartadas anualmente no Brasil , parcela crescente impulsionada pelo modelo de fast fashion: coleções semanais, preços artificialmente baixos, durabilidade planejada para zero. A moda é o segundo maior consumidor de água no mundo e responsável por quase 10% das emissões globais de carbono . A pesquisa é reveladora: 51% dos brasileiros reconhecem que a indústria ignora seus impactos ambientais mas apenas 26% compram exclusivamente de marcas sustentáveis . Roupas sustentáveis são mais caras. Sustentabilidade de alto custo é um privilégio de classe, não uma virtude pessoal. Gráfico 4 - Fast fashion: percepção crítica vs. comportamento de compra (2024) Energia renovável: o que o Brasil acerta e onde ainda falha? Há um campo em que o Brasil tem razão de se orgulhar: a matriz energética. Em 2024, 88% da eletricidade gerada no país veio de fontes renováveis : hidrelétricas, eólica, solar e biomassa (BEN 2025/EPE, ano-base 2024). É uma marca recorde e muito acima da média mundial. Gráfico 5 - Ma