Por Ludmila Vilar * Recorrer a ferramentas e projetos para acelerar a equidade racial é essencial para empresas que buscam fortalecer o pilar S do ESG . A iniciativa privada pode desempenhar - e já há bons exemplos disso - um papel importante na implementação de práticas para reparação aos descendentes dos povos africanos escravizados. O tema da reparação ganhou mais força recentemente, quando a ONU declarou a escravização de pessoas negras como o pior crime contra a humanidade. Nesse contexto, reparação significa o conjunto de medidas voltadas a corrigir, ainda que parcialmente, os efeitos históricos da escravidão e do racismo estrutural. Isso inclui políticas públicas, ações institucionais e iniciativas privadas que ampliem o acesso de pessoas negras à educação, renda, saúde. Também envolve reconhecimento histórico, produção de memória e, em alguns casos, mecanismos de compensação econômica ou redistribuição de recursos. O objetivo é reduzir desigualdades persistentes e criar condições mais equitativas no presente. A resolução da Assembleia Geral da ONU não tem caráter punitivo imediato. Ainda assim, carrega peso simbólico e político global. Na prática, a decisão fortalece a discussão sobre reparação. A proposta de reconhecimento teve 123 votos a favor, incluindo o Brasil, 52 abstenções e 3 contrários, da Argentina, Israel e Estados Unidos. A maior parte das abstenções veio de países europeus, como Portugal, Espanha, Reino Unido, França, Países Baixos e Bélgica. Todas são nações que patrocinaram o tráfico de pessoas para escravizá-las em suas colônias por mais de três séculos. Equidade racial no Brasil Segundo o IBGE, em 2024 a taxa de analfabetismo entre pretos ou pardos com 15 anos ou mais foi de 6,9%. O índice é mais que o dobro do registrado entre pessoas brancas, de 3,1%. No ensino superior, a diferença também persiste entre jovens de 18 a 24 anos. Entre brancos, 37,4% estavam na etapa adequada. Entre pretos ou pardos, o índice era de 20,6%. Já o Ipea aponta que a renda média da população branca pode ser cerca de 87% superior a da negra. Último país das Américas a abolir a escravização, em 1888, o Brasil teve quase 400 anos de regime escravocrata. Foi também a nação que recebeu o maior fluxo de africanos escravizados, somando mais de 4 milhões de pessoas. Os efeitos desse processo seguem visíveis e o Brasil pode ser um dos países na lista de nações que devem reparar estados africanos. Um ODS para medir e combater o racismo É possível medir o racismo? Sim, além dos dados que podem orientar a tomada de decisão, o Brasil conta com um instrumento único no mundo. Em 2025, o país passou a adotar um novo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável, além dos 17 definidos pela ONU. O ODS 18 trata da equidade étnico-racial e reúne 10 metas e 135 indicadores. O Instituto Cidades Sustentáveis disponibiliza um índice com mapa interativo que acompanha os ODS no Brasil, inclusive o 18. No ranking municipal, Riacho de Santo Antônio, na Paraíba, aparece na liderança em equidade racial. A informação exige cautela. Isoladamente, o ODS 18 pode ter desempenho alto em contextos demográficos mais homogêneos, em que a maior parte da população é negra ou parda. Isso reduz diferenças estatísticas entre grupos e eleva a nota, sem indicar melhores condições de vida. Nesse caso, trata-se de equidade relativa, não de desenvolvimento absoluto. Mecanismos de reparação para descendentes africanos Ainda que tardiamente, a partir dos anos 2000, o Brasil passou a adotar mecanismos de reparação nos setores público e privado. O enfrentamento ao racismo ganhou estrutura com o Programa Nacional de Ações Afirmativas, em 2002. No ano seguinte, foi a vez da criação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). A Lei de Cotas, de 2012, ampliou o acesso de negros ao ensino superior e foi estendida a concursos públicos em 2014. Com a estruturação de políticas públicas e maior debate sobre mecanismos de reparação, o Terceiro Setor e o Setor Privado também passaram a organizar iniciativas que têm buscado enfrentar o problema de forma sistematizada. O desafio, mais de um século após a abolição, permanece o mesmo apontado pela ONU: transformar reconhecimento histórico em redução concreta das desigualdades. Conheça algumas ferramentas que podem apoiar o setor público e privado no mapeamento da equidade racial em territórios e empresas CEERT www.ceert.org.br Criado em 1990, o CEERT produz conhecimento, desenvolve e executa projetos voltados para a promoção da igualdade de raça e de gênero. Entre os materiais de apoio produzidos pela instituição estão os Indicadores CEERT-ETHOS para a promoção da equidade de racial no mercado de trabalho. Para acessar os indicadores, clique aqui . Coalizão Empresarial para Equidade Racial e de Gêner o www.equidade.org.br A Coalizão Empresarial para Equidade Racial e de Gênero é um espaço de conexão de mais de 100 organizações. O objetivo é construir um mercado de trabalho mais eq