O jeito de construir o relato integrado mudou. Hoje, líderes de finanças e sustentabilidade enfrentam uma mesma realidade: reportar ficou mais complexo, mais exposto e mais caro. A questão já não é se reportar, mas como fazer isso sem multiplicar custos e riscos. Mesmo que o debate ainda esteja em amadurecimento no Brasil, o movimento global avança em velocidade difícil de ignorar. Empresas brasileiras inseridas em cadeias globais, que captam recursos no exterior ou atuam em mercados regulados, já convivem com dois referenciais principais: CSRD e ISSB. Por um tempo, eles foram vistos como caminhos distintos, o que alimentou a dúvida sobre qual “escolher”. Mas o presidente do ISSB, Emmanuel Faber, foi direto ao ponto. “Distinguir não significa separar. Significa tornar identificável dentro de uma apresentação combinada.” Um relato integrado, dois frameworks Na prática, não se trata de escolher entre um ou outro, mas de estruturar a informação de forma integrada, atendendo aos dois referenciais sem duplicidade de esforço. O desafio central está no que costumo chamar de “informação ofuscada”: quando dados realmente relevantes para investidores ficam diluídos em narrativas extensas, indicadores desconectados ou estruturas pouco claras. Pelo IFRS S1, isso não é detalhe. Informações essenciais, como exposição a riscos, geração de caixa e resiliência financeira, precisam estar claramente identificáveis, sem se perderem no volume geral do relatório. A forma de organizar a informação passa a ser tão relevante quanto o próprio conteúdo. Faber reforça esse ponto ao destacar que a exigência não é separar narrativas, mas garantir que a informação financeiramente material não seja ofuscada por conteúdos voltados a outros públicos. Isso significa que a pergunta não é se devemos produzir dois relatórios. O redesenho do relato integrado na prática O caminho mais inteligente está no redesenho da arquitetura do reporting desde a origem, permitindo que um único relatório atenda a múltiplos frameworks, com consistência e rastreabilidade. Na prática, isso envolve: ▶️ Diferenciação visual é mais eficiente que duplicação Recursos de design, como seções destacadas, sombreamento e marcações claras, são aceitos para evidenciar informações de materialidade financeira. Isso reduz retrabalho e evita estruturas paralelas. ▶️ Nem todo indicador deve ocupar o mesmo nível de leitura Impactos sociais ou ambientais relevantes não são automaticamente riscos financeiros. Misturar dimensões distintas em um único “score” pode comprometer a leitura e distorcer a avaliação de desempenho e resiliência. ▶️ Relatórios estruturados para leitura digital já são o próximo passo Com dados bem-organizados e tagueados, investidores e analistas conseguem extrair informações sem depender de leitura linear. Isso já é realidade e tende a se acelerar globalmente. No fim, o ponto central não é o formato, mas a governança da informação. Quando finanças e sustentabilidade não se alinham desde a origem sobre como os dados serão estruturados, o problema nasce dentro da organização e, inevitavelmente, aparece no relatório. A pergunta que fica é simples: isso já está na pauta da sua liderança? * Claudio Andrade Mestre em Comunicação Social pela USP, especialista em sustentabilidade empresarial e relatórios ESG. CEO da Ratio Sustentabilidade, professor na USP/ESALQ e Advisor ESG no setor da Construção. Membro Fellow do IBESG