Por Danilo Brandani Tiisel * Para Márcio Zepelini, CEO da Rede Filantropia, as empresas precisam entender melhor que o pilar S do ESG é sobre pessoas e muitas vezes não se encaixam nas métricas rígidas do mundo corporativo. Desde 2002 à frente instituição, ele vem atuando há mais de duas décadas para consolidar as organizações sociais do Brasil por meio da disseminação de conhecimento técnico sobre gestão do Terceiro Setor. Hoje, com o fortalecimento do ESG, o “S” de Social veio para o centro das discussões corporativas. Assim, o setor viu um avanço importante, que abriu portas para novas parcerias e mais recursos. Por outro lado, sentiu a pressão da lógica corporativa, que nem sempre dialoga com a realidade do trabalho com foco social. Nesta entrevista ao IBESG Journal , Márcio Zepelini , CEO da Rede Filantropia , fala sobre os impactos dessa mudança, os desafios enfrentados pelas Organizações da Sociedade Civil (OSC) e compartilha reflexões sobre parcerias mais justas e efetivas. A seguir, confira alguns trechos dessa conversa. O ESG reforçou o tema social na pauta das empresas. Isso tem sido bom para as OSCs ou criou novos desafios? Essa visibilidade é fundamental para o reconhecimento do valor do trabalho das OSCs. Por outro lado, surgiram desafios relevantes. Muitas empresas passaram a exigir das OSCs padrões de prestação de contas baseados na lógica corporativa, com métricas complexas e relatórios que nem sempre dialogam com a realidade das organizações sociais, especialmente as menores. IBESG - Pode nos dar um exemplo desse desalinhamento entre a expectativa corporativa e a realidade do Terceiro Setor? MZ- Uma pequena OSC comunitária, por exemplo, que atua diretamente com crianças em situação de vulnerabilidade, costuma concentrar seus esforços no atendimento e na construção de vínculos com a comunidade. Quando é demandada a produzir relatórios sofisticados de impacto ou adotar metodologias internacionais, pode acabar desviando tempo e energia da sua missão principal. Isso cria um descompasso entre a expectativa das empresas e a capacidade operacional das organizações da ponta. IBESG- O “S” do ESG é o que a Rede Filantropia faz há duas décadas. O que você gostaria que as empresas entendessem melhor sobre o trabalho social? MZ - Que o 'S' do ESG é, antes de tudo, sobre pessoas e transformação real, e nem sempre se traduz em métricas rígidas. O trabalho social exige flexibilidade, escuta e profundo conhecimento dos territórios. A verdadeira parceria acontece quando as empresas respeitam a autonomia das OSCs e valorizam sua expertise, entendendo que impacto qualitativo e relações duradouras são tão importantes quanto relatórios padronizados. IBESG- Que recado você deixa para o gestor de OSC que está nos lendo? MZ- Não desista. Acredite na sua motivação e na sua capacidade de fazer acontecer. A transformação social é desafiadora, mas cada aprendizado faz parte do caminho. Invista na profissionalização da gestão, use a criatividade para otimizar recursos e cultive relacionamentos. O medo faz parte do processo, mas não pode paralisar. A Rede Filantropia está ao seu lado nessa jornada, oferecendo conhecimento e ferramentas para seguir impactando vidas. Afinal, não basta fazer o bem. É preciso fazer bem feito. * Danilo Brandani Tiisel é advogado especializado em Terceiro Setor, com atuação em desenvolvimento institucional, direito contratual, tributário e governança de organizações da sociedade civil