Em maio de 2026, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) retirou a obrigatoriedade geral de divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade pelas companhias abertas, mantendo a possibilidade de adoção voluntária dos padrões internacionais do ISSB, representados no Brasil pelas normas do CBPS. Agora, em outubro, a CVM reabre essa discussão. Por meio de uma tomada pública de subsídios, a autarquia busca evidências para avaliar se o modelo voluntário atende adequadamente às necessidades dos investidores e se os benefícios de uma eventual obrigatoriedade justificariam os custos de implementação. Entre os aspectos em análise estão a qualidade e a comparabilidade das informações, os possíveis efeitos sobre o custo de capital, os custos de conformidade e alternativas para uma eventual retomada gradual das exigências. O debate vai além de publicar ou não um relatório. Trata-se de compreender qual informação sobre sustentabilidade é relevante para as decisões de negócio e para a avaliação das perspectivas de uma empresa. O que isso significa para os executivos? Independentemente do desfecho regulatório, três questões merecem atenção: 1. Os riscos e as oportunidades estão incorporados à estratégia? Mudanças climáticas, disponibilidade de recursos, exigências regulatórias e transformações nas cadeias de valor podem afetar operações, investimentos, receitas e custos. Identificar essas relações é parte da gestão empresarial, não apenas da elaboração de relatórios. 2. A empresa consegue demonstrar a relevância financeira dos temas de sustentabilidade? A adoção das normas IFRS S1 e S2 exige uma abordagem voltada aos riscos e às oportunidades que podem afetar as perspectivas financeiras da organização. Isso demanda informações consistentes, critérios claros de materialidade, indicadores pertinentes e integração entre sustentabilidade, estratégia, gestão de riscos e finanças. 3. A decisão de reportar — ou não — está fundamentada? A partir de 2027, as companhias abertas que optarem por não divulgar o relatório deverão justificar essa decisão ao mercado, conforme a regulamentação vigente. A escolha, portanto, requer uma avaliação que considere não apenas os custos de preparação, mas também as expectativas de investidores, financiadores e demais agentes relevantes. Da conformidade à geração de valor A discussão regulatória reforça uma questão essencial para a gestão: como transformar informações sobre sustentabilidade em subsídios concretos para decisões empresariais? Isso significa ir além do levantamento de iniciativas e da apresentação de indicadores. É preciso compreender como os temas materiais se relacionam com o modelo de negócio, quais riscos e oportunidades merecem prioridade e que evidências permitem avaliar seus efeitos sobre o desempenho e as perspectivas da organização. Não se trata de atribuir um retorno financeiro a toda iniciativa ESG, mas de desenvolver critérios consistentes para avaliar suas contribuições, seus riscos, seus custos e seus resultados. A CVM não decidiu restabelecer a obrigatoriedade dos relatórios. A consulta pública, aberta até 28 de fevereiro de 2027, busca justamente reunir evidências antes de uma eventual avaliação regulatória mais aprofundada. Para as empresas, entretanto, esperar uma nova obrigação para estruturar essas informações pode significar perder tempo na preparação de processos, dados e controles que exigem maturidade e integração entre diferentes áreas. O desafio executivo não é apenas decidir se a empresa deve reportar sustentabilidade. É assegurar que as informações relevantes estejam disponíveis para orientar decisões, fortalecer a governança e compreender como riscos e oportunidades ESG se conectam ao desempenho do negócio. Para acessar a consulta pública, clique aqui. Fonte: Comissão de Valores Mobiliários (CVM) — Edital de Tomada Pública de Subsídios ASA/CVM 02/2026, publicado em 29 de outubro de 2026.