Diego Carbonell e Lúcia Helena da Silva* O carnaval sempre foi uma potência cultural, econômica e social. Mas, em um cenário de crescente cobrança por responsabilidade, transparência e impacto positivo, surge uma pergunta inevitável: como garantir que essa potência continue relevante, financiável e legítima no longo prazo? A resposta passa pela sustentabilidade, entendida de forma ampla, integrada e estratégica. Não apenas como preocupação ambiental, mas como um modelo de organização capaz de fortalecer o carnaval socialmente, profissionalizá-lo institucionalmente e torná-lo ainda mais atrativo para investimentos públicos e privados. Em São Paulo, o projeto Carnaval Sustentável SP abriu uma janela concreta de oportunidades ao propor exatamente essa mudança de perspectiva. Ao organizar o debate sobre sustentabilidade dentro do universo das escolas de samba, o projeto não apenas trouxe novas práticas, mas também reposicionou o próprio carnaval como plataforma de desenvolvimento. É importante reconhecer que o carnaval possui uma capacidade singular de comunicação social. As escolas de samba não são apenas organizações culturais ou produtoras de espetáculo: elas são narradoras de histórias coletivas. A cada ano, os enredos apresentados na avenida interpretam temas históricos, sociais e culturais, dialogando com o imaginário popular e alcançando milhões de pessoas por meio das transmissões televisivas e digitais. Nesse sentido, quando a sustentabilidade passa a integrar o universo simbólico do carnaval, ela também se transforma em mensagem cultural de grande alcance, capaz de estimular a reflexão e influenciar comportamentos. Quando falamos de sustentabilidade no carnaval, estamos falando, antes de tudo, de pessoas. As escolas de samba são polos de geração de trabalho e renda, formação profissional e pertencimento comunitário. Costureiras, soldadores, aderecistas, músicos, coreógrafos, cenógrafos e produtores culturais encontram ali oportunidades reais de qualificação e atuação. Estruturar essas dinâmicas sob a lógica da sustentabilidade social significa reconhecer o carnaval como ferramenta permanente de desenvolvimento territorial. Não é apenas espetáculo; é política pública viva. Esse compromisso com o futuro também se manifesta na formação das novas gerações do carnaval. Na abertura do desfile da Liga do Amanhã, que reúne as escolas de samba mirins da Liga-SP, foram apresentados 11 estandartes representando os 11 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável atendidos pelas ações da Liga, em alinhamento com o projeto Carnaval Sustentável SP. As iniciativas dialogam diretamente com 11 (ODS 1, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 10, 12, 13 e 17) dos 17 ODS estabelecidos pela Organização das Nações Unidas. Mais de 1.500 crianças desfilaram na avenida, conectando simbolicamente o trabalho realizado hoje com o futuro do carnaval e da sociedade. Ao mesmo tempo, há uma dimensão ambiental que já não pode ser ignorada. O carnaval mobiliza uma quantidade significativa de materiais: tecidos, ferragens, madeira, espumas, tintas e estruturas cenográficas. A lógica do uso único se torna cada vez mais incompatível com o nosso tempo . Mais do que uma questão técnica de gestão de recursos, essa transformação também possui um forte componente pedagógico. Quando o público observa alegorias reconstruídas, fantasias reaproveitadas ou soluções criativas baseadas em materiais reciclados, o carnaval passa a demonstrar, de forma concreta, que é possível produzir beleza, arte e espetáculo dentro de uma lógica de responsabilidade ambiental. O desfile, nesse sentido, torna-se também um espaço de inspiração coletiva, onde práticas sustentáveis deixam de ser apenas discurso e passam a ser experimentadas visualmente diante de milhões de espectadores. Incorporar práticas de circularidade, reaproveitamento de fantasias, reestruturação de alegorias, bancos de materiais, gestão adequada de resíduos, não representa apenas responsabilidade ambiental, mas também inteligência de gestão. Reduz desperdício, otimiza recursos e traz racionalidade econômica ao processo produtivo. Algumas iniciativas recentes demonstram como essas soluções podem ganhar escala. Durante os dias de desfile do Grupo Especial, Acesso 1 e Acesso 2, em parceria com as empresas Papirus e Nazapack, foram distribuídos mais de 30 mil copos e 100 mil ventarolas produzidos em papel cartão. Os copos foram fabricados com 100% de fibras virgens branqueadas, garantindo resistência e desempenho técnico, enquanto as ventarolas utilizaram o papel cartão Vitabianco, da linha Vita Papirus, que contém 20% de fibras recicladas. A iniciativa reforça o potencial do papel cartão como alternativa mais sustentável e alinhada à economia circular, além de evitar o uso de plástico de uso único .Mais do que uma solução técnica, a presença desses materiais no ambiente do desfile também cumpre um papel simbólico e educativo, aproximando o público do tema e demonstrando, na prática, que o carnaval pode i